O ano 1000 da era crist foi comemorado apenas numa pequena regio do planeta, por uma frao reduzida da humanidade. A data s tinha significado para uma cristandade sitiada, numa parte da Europa, por pagos do Norte, invasores nmades ao Leste e muulmanos ao Sul.

Meio milnio mais tarde, a cristandade comeou sua conquista do mundo rebatizando-se aos poucos de Ocidente e impondo seu calendrio. O ano 2000, embora longe de gerar a ansiedade da virada anterior de milnio, suscitar uma comemorao mais ou menos planetria.

O ano 1000 foi precedido de profecias apocalpticas. O que acontecer no ano 2000 e depois tem sido tema para escritores, economistas, politiclogos e cineastas. Todo um gnero literrio nasceu dessas especulaes: a fico-cientfica.

Dois de seus primeiros praticantes, o francs Jules Verne e o ingls H.G. Wells, fizeram predies interessantes. Verne concentrou-se na evoluo da tecnologia e os desenvolvimentos que tematizou concretizaram-se antes do que se previa.

A viagem  lua de Wells tambm  coisa do passado. Mas este, em "A Mquina do Tempo", abordou as possveis consequncias de um aprofundamento do abismo entre as classes, imaginando que ele chegaria a gerar uma mutao que subdividiria a humanidade em duas espcies distintas. Num pas como o Brasil, isto talvez no esteja to longe de acontecer.

No entanto, as trs obras de antecipao mais discutidas pertencem ao que poderamos chamar de fico cientfico-poltica.

A primeira delas  "Ns" do russo Ievguni Zamitin que, por sua vez, inspirou as duas outras, "Admirvel Mundo Novo", de Aldous Huxley, e "1984", de George Orwell, ambos autores ingleses.

As trs imaginavam qual seria o destino do homem num mundo concebido segundo as frmulas dessa inveno particularmente moderna: a engenharia social. Seu pano de fundo era o totalitarismo e todas se mostravam profundamente pessimistas.

Hiroshima e Nagasaki, em 1945, realimentaram a fico-cientfica com o elemento central da ansiedade do primeiro milnio, pois a Bomba transformara, durante a Guerra Fria, o apocalipse numa possibilidade real.

Mas em 1989 aconteceu o que nenhum escritor do ramo ousara profetizar: o bloco comunista comeou a desmoronar e, pouco depois, Leningrado foi desrebatizada, voltando a se chamar So Petersburgo.

Nos Blcs, o futuro voltou ao passado, primeiro a 1941 e, agora, a 1912 ou mesmo antes. No Cucaso e na frica Central o que est ocorrendo  um renascimento do neoltico ou talvez do paleoltico, com guerras tribais de todos contra todos, como j dizia, sculos atrs, Thomas Hobbes. Isso, novamente, quase ningum previu.

O passado, alis, tornou-se no sculo 20 um assunto muito mais palpitante do que o futuro, principalmente porque a arqueologia produziu mais novidades do que a poltica ou a cincia.

No  a toa, portanto, que os livros dedicados a recontar a histria de acordo com novas teorias e conhecimentos "O Nome da Rosa" de Umberto Eco, ou "Memrias de Adriano" de Marguerite Yourcenar obtiveram mais sucesso que obras profticas e/ou especulativas.

Assim, as fantasias futuristas deslocaram-se dos livros para o cinema. No h uma nica obra literria desse gnero que tenha conseguido a repercusso do "2001 - Uma Odissia no Espao", filme de Stanley Kubrick. No entanto, seu porvir assptico e seu imenso computador rebelde parecem hoje obsoletos.

Afinal, os anos 80 domesticaram definitivamente o computador e a nova conscincia ecolgica faz muita gente imaginar o prximo milnio como algo superpovoado, poludo e sujo.

A encarnao mais durvel, at o momento, da fantasia futurista se encontra em "Blade Runner" de Ridley Scott, que tematiza no apenas a degradao ambiental, mas tambm a engenharia gentica. O autor do livro em que se baseou o filme, Phillip K. Dick, foi dos poucos que, na fico-cientfica, aproximou-se da profecia ao tratar tanto desses assuntos como da importncia crescente das drogas no mundo moderno.

As previses mais exatas, contudo, foram recentemente realizadas no por um futurlogo profissional nem por um roteirista hollywoodiano, mas pelo poeta e ensasta alemo Hans Magnus Enzensberger.

O posfcio ao seu "A Outra Europa"  uma reportagem ficcional extrada do "The New New Yorker" de 21 de fevereiro de 2006. O reprter americano que a escreve fala de Ceausescu, o ditador comunista da Romnia: "Aquele velho gngster demoliu o que pde, at ser morto  tiros por seu prprio pessoal".

S que Enzensberger escreveu de fato seu texto em 1987, enquanto Ceausescu foi morto em fins de 1989. A reportagem refere-se tambm s runas do muro de Berlim e  abolio do tabagismo nos EUA. Tal clarividncia  rara, mas existe. E onde menos se espera.
